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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Santo Agostinho e o ceticismo


A desilusão da qual Agostinho sofreu com os maniqueus e a impossibilidade de que esta seita respondesse ás dúvidas que permeavam sua mente sobre a verdade, a essência de Deus, a origem do mal entre outros levou – como dito no tópico anterior - Agostinho ao ceticismo. Porém, este ceticismo não se referia sobre a ausência total de uma verdade, pois, segundo ele as operações matemáticas ofereciam certezas sobre as quais não é possível duvidar, mas sim obter nas respostas que procurava as mesmas certezas que provinham das ciências matemáticas (Conf. VI 4,6). Estas incertezas angustiavam a Agostinho, o encontro com um mendigo embriagado relatado no Livro VI das confissões relata bem sua angústia por não conseguir obter a verdade:

“Meu coração agitava-se com esses cuidados... quando, passando por uma viela de Milão, reparei num pobre mendigo que, talvez meio bêbado, estava alegre e de bom humor... É claro que a alegria dele não era a verdadeira; mas o objeto de minha ambição era bem mais falso. Ele, pelo menos estava satisfeito com sua alegria, e eu, preocupado... cheio de inquietações.” (Conf. VI 6, 9)

Agostinho reconhece que - após o episódio com o mendigo em Milão -a busca da verdade e o seu atual ceticismo tinham como princípio e fundamento a sua ambição, ou seja, a sede por conseguir as respostas tão desejadas tinha como objetivo saciar sua vaidade, isto é, de ser bem visto pelos homens e receber deles a glória. A busca pela verdade tinha tomado outro rumo, não existia mais o desejo de possuí-la e dela deleitar-se desfrutando de toda a sua beleza, mas sim, por pura vaidade.
No diálogo A vida feliz Agostinho refuta o ceticismo de Navígio partindo da afirmação de sua própria existência, ou seja, a certeza de que possuímos um corpo e uma alma é o primeiro passo obtido por Agostinho rumo a resolver tal problema; a garantia de que somos, também garante-nos a existência de um corpo que necessita de alimento para subsistir e que ele não se sustenta por suas próprias forças. Entretanto, é a vida que mantém o corpo; o alimento impede que o corpo definhe, mas é a alma, ou seja, é a vida e não o alimento que garante a existência (A Vida Feliz II, 2,7). Para provar a existência de Deus, Agostinho em sua obra O Livre Arbítrio, também parte de sua própria existência para assim comprovar a existência de Deus, estabelecendo uma hierarquia dos seres de acordo com suas características (O Livre Arbítrio III, 3,7). Assim sendo, os céticos podem duvidar de tudo menos de sua própria existência, o ceticismo é então contraditório para Agostinho.
Mesmo ciente das contradições do ceticismo e anteriormente do maniqueísmo, a influência destes ainda impede a Agostinho de caminhar em busca da verdade. No livro VII das Confissões Agostinho ainda carregado da influência materialista do materialismo maniqueísta, se vê incapacitado de conceber a essência de Deus:

“Não conseguia imaginar outra substância além da que os olhos vêem... Desse modo eu era sempre constrangido a imaginar-te, se bem que não sob forma de corpo humano, sempre como algo corpóreo...” (Conf. VII 1,1)

Essa dificuldade de diferenciar a luz de sua materialidade é explicada por Gilson:

“Não somente entendias essa luz em sentido material, mas ele materializava também tudo que, sendo de natureza luminosa, devia ser considerado como uma parcela de Deus.” (GILSON, 436)

Ao contrário, a influência acadêmica que pairava sobre a mente de Agostinho consistia na possibilidade ou não de crer nas Escrituras. A possibilidade de encontrar uma certeza inabalável como as certezas matemáticas levam-no a abrir-se a fé, ou seja, somente através da fé é que Agostinho poderá encontrar as certezas que tanto procura; antecedendo a razão cabe agora a própria razão explicar aquilo que a fé lhe propõe. O ato de crer é perfeitamente normal e existe em todos os âmbitos de qualquer sociedade, pois ela parte de um testemunho; todos os conhecimentos e verdades que até então encontramos em nossa vida – em sua grande maioria – são pautados pelo testemunho ou pela autoridade de quem se confia, portanto o ato de crer é perfeitamente comum e dá a Agostinho uma nova visão - á outrora concebida como sem valor - as Escrituras Sagradas.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Porque Agostinho busca a verdade?

Para falar de Agostinho é necessário ter em mente o fundamento de toda a sua procura por Deus: a busca por uma verdade. Esta, como tal, surge após a leitura de um livro que mudou a vida de Agostinho; é a partir deste dado - e de outros que dará relevância a este tema - que iremos procurar compreender a filosofia agostiniana.

A busca pela verdade tornou-se como que uma fixação para Agostinho após a leitura, em sua adolescência, de uma obra de Cícero intitulada Hortênsio (Conf. III 4,7). Entretanto, ao olharmos para a sua vida, descrita em sua grande parte em sua obra intitulada Confissões, perceberemos que, mesmo sendo considerado como santo pela Igreja Católica, sua vida até o encontro com tal obra - mais precisamente com dezenove anos - até então fora marcada por uma entrega a sensualidade, as paixões, excessos e furtos que o seduziam de tal forma que acabaram por tornarem-se vícios (Conf. II, 3,7). Com a leitura do Hortênsio, todos estes vícios passaram a ocupar um lugar secundário na vida de Agostinho; o que lhe interessava a partir daquele momento e lhe dava prazer era a busca da sabedoria e da verdade.
É justamente esse caráter pecador de sua vida antes da busca pela verdade com seus primeiros passos e decepções em seu transcurso e a conseqüente descoberta desta a qual tanto procurou e o tornou feliz, dá a Agostinho a certeza de que Deus o conduzia por todos estes caminhos e que fora necessário passar por tantas dúvidas e incertezas para que pudesse desfrutar com maior prazer –não os efêmeros nos quais sua juventude aproveitou -mas sim, um deleite eterno e do qual ele nunca se dará por satisfeito. As preces de sua mãe em todo o tempo confuso e difícil de sua vida até sua conversão é outro sinal do que Deus realmente desejava para sua vida.
Para compreender o encontro de Agostinho com a verdade e conseqüentemente com Deus se faz necessária à compreensão de seu caminho cheio de obstáculos e angústias. Sem o conhecimento destes não é possível comprender toda a poética existente em seus escritos, onde nestes estão o êxtase de tão grande descoberta, e principalmente o caráter orientador que possui suas palavras que convidam a todos a também participarem desta mesma verdade. A organização de sua obra Confissões relata com precisão todas as fases de sua vida: uma infância até certo ponto “rebelde”, uma juventude regada por prazeres até a chegada a uma maturidade onde passo a passo chega à conversão ao cristianismo e conseqüentemente ao catolicismo. É justamente esta obra que fornece o fundamento para este presente capítulo que irá relatar este período de início obscuro e conturbado que Agostinho passa em sua busca pela verdade, suas concepções errôneas e por fim a elucidação destas através do conhecimento da essência de Deus.

Agostinho e o maniqueísmo

A busca de Agostinho pela verdade tem como primeira parada o maniqueísmo. Mas por quê? O que o teria levado a aderir esta seita? Após a leitura do Hortênsio, Agostinho tem contato com as Sagradas Escrituras com o intuito de conhecê-las (Conf. III 5,9). Ao notar a linguagem simples das Escrituras com a leitura do livro de Cícero, Agostinho se decepciona profundamente; a causa de sua decepção é descrita por Etienne Gilson:

“... nada mais ridículo para um leitor como Agostinho, do que, interpretando-a num sentido material, representar Deus como um homem parecido conosco e que passeia no jardim do Éden e conversa com Adão da maneira como os homens conversam entre si. É no auge desta decepção que ele acata os maniqueus”. (GILSON, 434)

Destarte, ao ver nas Escrituras que Deus ao mesmo tempo em que é perfeito, estava limitado a um corpo, ficou profundamente decepcionado. Portanto, sua adesão ao maniqueísmo não foi em vão e nem simplesmente uma escolha dentre muitas das quais poderia escolher porque no maniqueísmo Agostinho encontrava além de uma leitura e entendimento racional das Escrituras, encontrava também um caminho para a sabedoria no Cristo, pois estes, conforme ele afirma nas Confissões, pronunciavam continuamente o seu nome (Conf. III 6,10). O fundamento do maniqueísmo estava no materialismo de tendência gnóstica, o dualismo que ensinava o fundador desta seita – Manés - justificava seu fundamento, ou seja, dois princípios que existem desde sempre - bem/luz e o mal/trevas – e que lutam entre si. Concebia desta forma Deus, embora sendo luz, como corpóreo e da mesma forma o mal. Esta concepção exerceu muita influência sobre o pensamento de Agostinho pelo fato de que esta lhe fornecia uma resposta para a origem do mal.
Ainda assim, por mais que o maniqueísmo e sua doutrina oferecessem respostas às perguntas que Agostinho carregava estas não lhe satisfaziam, aumentando assim ainda mais suas dúvidas sobre a essência de Deus. O problema do mal também inquietara a Agostinho, pois se o bem é material, o mal também o é; sendo Deus perfeito, como poderia o mal fazer parte daquilo que é perfeito?
Entretanto, tais dúvidas tinham um prazo para se extinguirem. Estava para chegar a Cartago um bispo Maniqueu, chamado Fausto que era muito admirado pelos maniqueus e possuía uma fama de ser extremamente competente nas ciências nobres (Conf. V, 3,3) e erudito nas letras. Muitos dos que pertenciam à seita não conseguiam, nos nove anos em que Agostinho fazia parte desta, responder todas as suas dúvidas. Contudo, apontavam para tal bispo como sendo aquele que retiraria de Agostinho todas as suas dúvidas com “extrema facilidade” (Conf. V, 6,10). A retórica e as palavras sempre bem colocadas do bispo maniqueu a quem lhe interrogava animava a Agostinho, mas, este ainda não havia conseguido expor de forma particular suas dúvidas. Tendo a oportunidade de se reportar a Fausto, Agostinho se decepcionou; além de não conseguir responder suas perguntas, este percebe que possui uma maior competência nas disciplinas liberais do que o bispo maniqueu (Conf. V, 6,11). É o começo da desilusão de Agostinho com o maniqueísmo.
A grande dificuldade que Agostinho encontrava sobre todas as suas dúvidas o levava, ainda que de forma inconscientemente, para fora do maniqueísmo. Suas dúvidas ganharam uma forma diferente, ou seja, a dificuldade em explicar tais realidades incorpóreas, aproximou Agostinho dos acadêmicos, pois estes afirmavam que “... o homem nada pode compreender da verdade” (Conf. X, 10,19).

No post seguinte falaremos sobre o ceticismo de Agostinho.