“Na verdade, é Deus que produz em vós tanto o querer como o fazer, conforme o seu agrado”.(Fl 2,13)
Para muitos a frase acima chega a ser pretenciosa, maluca, herética e até mal-educada. Sem contar que a mesma frase é o motivo de muitas discussões entre católicos e protestantes que tecem discussões sem fim, principalmente se tocar no assunto de Maria, a mãe de Jesus, citando inúmeras partes da bíblia onde cada um defende seus pontos de vista sem vacilar. Deixando de lado tais discussões, voltemos ao tema desta reflexão e procuremos buscar encontrar uma resposta que satisfaça a todos. Que audácia! Porém, não estou sozinho nesta árdua empresa, muito pelo contrário, Santo Agostinho é o motor propulsor desta reflexão, pois, ele teve de resolver esta reflexão utilizando-se de uma argumentação filosófico-teológica inigualável que tomarei como fundamento.
A questão que se refere a possibilidade de uma vida sem pecados não é tão simples, como foi mencionado acima, visto que a bíblia afirma categoricamente:
“Se dizemos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos, e a Verdade não esta em nós... Se dizemos que nunca pecamos, estaremos afirmando que Deus é mentiroso, e a sua palavra não está em nós.” (1Jo 1, 8.10)
Se prestarmos atenção a estas palavras de S. João e nos apegarmos a ela, notaremos que dar prosseguimento a esta reflexão não tem nenhum sentido, visto a clareza e a dureza com que o apóstolo se refere à consciência de que o pecado é inerente à natureza humana. Dito isto, o que impulsiona o bispo de Hipona a refletir sobre um tema que, aparentemente se apresenta sem qualquer solução, tanto na esfera humana quanto na esfera religiosa? Antes de responder a esta questão, gostaria de expor o contexto de seu surgimento.
O confronto com os Donatistas durou aproximadamente trinta anos, a origem deste combate procedeu da inexistência de limites da ação do Estado –no caso Roma - em assuntos eclesiais e, como não poderia deixar de ser, os limites da ação da Igreja em assuntos que pertenciam a esfera do Estado tendo como contexto o continente africano, em especial a cidade de Cartago. O resultado deste problema se verificou com a perseguição do Estado aos religiosos que admitiam a superioridade da Igreja também em assuntos políticos.
Até este ponto não se percebe nenhuma novidade visto que, hoje em dia ainda acontecem perseguições a aqueles que se opões aos interesses estatais. No entanto, o que gostaria de destacar é que foram justamente estas perseguições que suscitaram o chamado “cisma donatista”, isto é, alguns membros da própria Igreja africana, influenciados por Donato, bispo da Igreja, a impedir o retorno de religiosos que sucumbiam ao poder do Estado – entregando as escrituras, textos religiosos, etc. – para escaparem da morte ou de uma possível prisão.
O que inflamou o discurso donatista foi justamente a morte daqueles que não aceitavam a imposição e a consequente renúncia sua fé e morriam por esta causa. Pode-se citar como exemplo São Cipriano e as Santas Perpétua e Felicidade. O argumento utilizado pelos donatistas para impedir o retorno destes religiosos que renunciavam a fé em troca de sua vida consiste que estes não eram mais dignos de administrar os sacramentos. O rigor dos donatistas tornou-se tal que abrangia também os leigos, fazendo com que os traidores da fé fossem rebatizados.
Tais atitudes forneceram o material inspirador a Agostinho que, a partir deles escreveu muitas obras para combater este pensamento donatista que chegou a dividir a Igreja Católica na África. A princípio, os objetivos iniciais do bispo Agostinho consistiam em refutar tais argumentos separatistas e, como consequência desta refutação restabelecer a unidade na Igreja Católica na África. Nestes argumentos encontraremos a resposta de Agostinho a nossa reflexão.
Segundo o bispo de Hipona, o fato de que alguns bispos venham a ter renunciado a fé por medo e conservar a vida, não o impediam de ministrar os sacramentos e fazer com que os leigos fossem rebatizados, ou seja, os rituais sacramentais e o próprio celebrante são apenas instrumentos, pois, a validade destes reside na graça de Cristo e não em seus ministros. O Catecismo da Igreja Católica define os sacramentos seguindo esta linha de pensamento:
“A Igreja é, em Cristo, como que o sacramento ou o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo gênero humano. Ser o sacramento da união íntima dos homens com Deus é o primeiro objetivo da Igreja.” (CIC, 775)
Em sua obra A Graça (I), Agostinho trabalha o tema da graça detalhadamente, resultado dos seus argumentos que derrubaram a tese donatista fazendo a seguinte questão: É possível ao homem, neste mundo, viver sem a mancha do pecado? Com sua sabedoria Agostinho sabe desta impossibilidade por saber da imperfeição da natureza humana, no entanto, essa possibilidade não pode ser considerada leviana. E por que? O fato de não existir ontem, hoje e sempre pessoas com essa capacidade de perfeição não anulam a questão se considerarmos a seguinte frase de Agostinho: “Portanto, é inacreditável que tenha existido ou possa existir alguém que tenha realizado esta ação, na hipótese de que o ser humano a possa realizar. Mas deves ter em conta que esta obra, embora pertença ao homem realiza-la, é também uma dádiva divina (grifo meu); assim não tenhas dúvida de que é uma obra divina”.( A Graça I, pg.19)
Ao ouvirmos esta questão nossa resposta é automática: não. No entanto, estamos esquecendo-se do infinito poder de Deus que Agostinho faz questão de destacar. Tanto é que mesmo quando o homem pratica ou vive na justiça perante outros homens que a confirma, tal ação também só pode ser possível através da ação de Deus. Explica Agostinho:
“Mas é preciso resistir com decisão e veemência àqueles que consideram ser possível às forças humanas da vontade, sem o auxílio divino, ou viver na justiça ou nela progredir após tê-la alcançado. E quando são questionados sobre como presumem asseverar possibilidade sem a ajuda de Deus, calam-se e não ousam propalar esta afirmativa, porque percebem quão ímpia é e intolerável.” (Idem pp. 19-20)
Portanto, a vida sem pecado é possível sim, mas, não segundo nossas próprias atitudes que jamais nos levaram a impedir de cometê-los, da mesma forma que a nossa justiça imperfeita e que agrada a todos os homens e permite a paz entre todos também só é possível mediante a mesma graça. Assim, a crença na virgindade e pureza de Maria é perfeitamente possível, não por seus méritos que sabemos não seriam capazes de conseguir tal mérito, e sim segundo as palavras do anjo Gabriel: “ Salve Maria, cheia de graça o Senhor está contigo!”( Lc 1, 28)


