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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

É POSSÍVEL UMA VIDA SEM PECADO?



“Na verdade, é Deus que produz em vós tanto o querer como o fazer, conforme o seu agrado”.(Fl 2,13)

Para muitos a frase acima chega a ser pretenciosa, maluca, herética e até mal-educada. Sem contar que a mesma frase é o motivo de muitas discussões entre católicos e protestantes que tecem discussões sem fim, principalmente se tocar no assunto de Maria, a mãe de Jesus, citando inúmeras partes da bíblia onde cada um defende seus pontos de vista sem vacilar. Deixando de lado tais discussões, voltemos ao tema desta reflexão e procuremos buscar encontrar uma resposta que satisfaça a todos. Que audácia! Porém, não estou sozinho nesta árdua empresa, muito pelo contrário, Santo Agostinho é o motor propulsor desta reflexão, pois, ele teve de resolver esta reflexão utilizando-se de uma argumentação filosófico-teológica inigualável que tomarei como fundamento.
A questão que se refere a possibilidade de uma vida sem pecados não é tão simples, como foi mencionado acima, visto que a bíblia afirma categoricamente:

“Se dizemos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos, e a Verdade não esta em nós... Se dizemos que nunca pecamos, estaremos afirmando que Deus é mentiroso, e a sua palavra não está em nós.” (1Jo 1, 8.10)

Se prestarmos atenção a estas palavras de S. João e nos apegarmos a ela, notaremos que dar prosseguimento a esta reflexão não tem nenhum sentido, visto a clareza e a dureza com que o apóstolo se refere à consciência de que o pecado é inerente à natureza humana. Dito isto, o que impulsiona o bispo de Hipona a refletir sobre um tema que, aparentemente se apresenta sem qualquer solução, tanto na esfera humana quanto na esfera religiosa? Antes de responder a esta questão, gostaria de expor o contexto de seu surgimento. 


O confronto com os Donatistas durou aproximadamente trinta anos, a origem deste combate procedeu da inexistência de limites da ação do Estado –no caso Roma -  em assuntos eclesiais e, como não poderia deixar de ser, os limites da ação da Igreja  em assuntos que pertenciam a esfera do Estado tendo como contexto o continente africano, em especial a cidade de Cartago. O resultado deste problema se verificou com a perseguição do Estado aos religiosos que admitiam a superioridade da Igreja também em assuntos políticos. 
Até este ponto não se percebe nenhuma novidade visto que, hoje em dia ainda acontecem perseguições a aqueles que se opões aos interesses estatais. No entanto, o que gostaria de destacar é que foram justamente estas perseguições que suscitaram o chamado “cisma donatista”, isto é, alguns membros da própria Igreja africana, influenciados por Donato, bispo da Igreja, a impedir o retorno de religiosos que sucumbiam ao poder do Estado – entregando as escrituras, textos religiosos, etc. – para escaparem da morte ou de uma possível prisão.
O que inflamou o discurso donatista foi justamente a morte daqueles que não aceitavam a imposição e a consequente renúncia sua fé e morriam por esta causa. Pode-se citar como exemplo São Cipriano e as Santas Perpétua e Felicidade. O argumento utilizado pelos donatistas para impedir o retorno destes religiosos que renunciavam a fé em troca de sua vida consiste que estes não eram mais dignos de administrar os sacramentos. O rigor dos donatistas tornou-se tal que abrangia também os leigos, fazendo com que os traidores da fé fossem rebatizados.
Tais atitudes forneceram o material inspirador a Agostinho que, a partir deles escreveu muitas obras para combater este pensamento donatista que chegou a dividir a Igreja Católica na África. A princípio, os objetivos iniciais do bispo Agostinho consistiam em refutar tais argumentos separatistas e, como consequência desta refutação restabelecer a unidade na Igreja Católica na África. Nestes argumentos encontraremos a resposta de Agostinho a nossa reflexão.
Segundo o bispo de Hipona, o fato de que alguns bispos venham a ter renunciado a fé por medo e conservar a vida, não o impediam de ministrar os sacramentos e fazer com que os leigos fossem rebatizados, ou seja, os rituais sacramentais e o próprio celebrante são apenas instrumentos, pois, a validade destes reside na graça de Cristo e não em seus ministros. O Catecismo da Igreja Católica define os sacramentos seguindo esta linha de pensamento:

“A Igreja é, em Cristo, como que o sacramento ou o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo gênero humano. Ser o sacramento da união íntima dos homens com Deus é o primeiro objetivo da Igreja.” (CIC, 775)
 Em sua obra A Graça (I), Agostinho trabalha o tema da graça detalhadamente, resultado dos seus argumentos que derrubaram a tese donatista fazendo a seguinte questão: É possível ao homem, neste mundo, viver sem a mancha do pecado? Com sua sabedoria Agostinho sabe desta impossibilidade por saber da imperfeição da natureza humana, no entanto, essa possibilidade não pode ser considerada leviana. E por que? O fato de não existir ontem, hoje e sempre pessoas com essa capacidade de perfeição não anulam a questão se considerarmos a seguinte frase de Agostinho:

 “Portanto, é inacreditável que tenha existido ou possa existir alguém que tenha realizado esta ação, na hipótese de que o ser humano a possa realizar. Mas deves ter em conta que esta obra, embora pertença ao homem realiza-la, é também uma dádiva divina (grifo meu); assim não tenhas dúvida de que é uma obra divina”.( A Graça I, pg.19)


Ao ouvirmos esta questão nossa resposta é automática: não. No entanto, estamos esquecendo-se do infinito poder de Deus que Agostinho faz questão de destacar. Tanto é que mesmo quando o homem pratica ou vive na justiça perante outros homens que a confirma, tal ação também só pode ser possível através da ação de Deus. Explica Agostinho:

“Mas é preciso resistir com decisão e veemência àqueles que consideram ser possível às forças humanas da vontade, sem o auxílio divino, ou viver na justiça ou nela progredir após tê-la alcançado. E quando são questionados sobre como presumem asseverar possibilidade sem a ajuda de Deus, calam-se e não ousam propalar esta afirmativa, porque percebem quão ímpia é e intolerável.” (Idem pp. 19-20)

Portanto, a vida sem pecado é possível sim, mas, não segundo nossas próprias atitudes que jamais nos levaram a impedir de cometê-los, da mesma forma que a nossa justiça imperfeita e que agrada a todos os homens e permite a paz entre todos também só é possível mediante a mesma graça. Assim, a crença na virgindade e pureza de Maria é perfeitamente possível, não por seus méritos que sabemos não seriam capazes de conseguir tal mérito, e sim segundo as palavras do anjo Gabriel: “ Salve Maria, cheia de graça o Senhor está contigo!”( Lc 1, 28) 




domingo, 9 de janeiro de 2011

A importância da mediação humana


Nos dias atuais notamos a importância e influência que alguns pregadores possuem sobre seus fiéis. Tal “devoção” chega ao ponto de ocorrerem desavenças entre pessoas de ideias e concepções diferentes da ideia que possuem sobre o que é, na verdade, um pregador. Estes, em sua grande maioria, ensinam a doutrina cristã católica convencional; no entanto, os que acabam se sobressaindo são aqueles que em certo sentido “avançam”, adaptando a fé ao que o mundo pede.
Mas, deixando as polêmicas de lado – sendo que elas não são o motivo desta reflexão – o que deve ser considerado como relevante é se mesmo com todas estas diferentes formas de se anunciar o Evangelho, seria o papel de anunciador, que é adotado por aquele(a) neoconverso, realmente necessário para Deus? Qual a importância dele, mesmo com todas as divergências colocadas no parágrafo anterior?
Santo Agostinho, em seu livro A Doutrina cristã, destaca uma parte de seu prólogo para definir a importância da mediação humana na evangelização partindo de um ponto nada simples: ele mesmo. Sim, porque na obra acima citada Santo Agostinho quer ensinar como interpretar as Escrituras de forma que, aqueles que a estudam  consigam compreender – ainda que de forma superficial -  o que Deus quer transmitir e, assim, retransmitir o que foi apreendido de forma correta ( a medida que avançam em seus estudos não somente da Bíblia) evitando um ensino equivocado e logo desfigurado do que a Igreja, através do seu magistério sempre ensinou; como o próprio Santo afirma: “ Assim, poderão eles progredir não apenas lendo obras de outros que esclareceram as obscuridades dos Livros santos, mas ainda progredir , com os esclarecimentos que eles próprios poderão dar a outros.” (A Doutrina Cristã, pg. 41)
Além desta primeira recomendação, Sto. Agostinho quer também responder a aqueles que venham a refutar seus argumentos, como acontece hoje em dia e que foi comentado no começo desta reflexão. Assim, ele divide seus contestadores em três: aqueles que simplesmente não entenderam, aqueles que entenderam e que ao aplicarem tais formas não chegam ao resultado esperado: a compreensão do texto sagrado, e, por último, aqueles que julgam não ser necessárias as argumentações agostinianas por se considerarem “escolhidos (as)” por Deus, sendo capazes de interpretar qualquer passagem que lhes forem apresentadas através da oração.
A resposta do bispo de Hipona a estes contestadores é simples: aos primeiros que julgam seus argumentos confusos por não conseguirem compreendê-los, ele responde que não é a ele (Agostinho) que eles devem reclamar, dando a entender que alguns devem se esforçar muito mais do que outros antes de tentar interpretar as Escrituras, ou então, desistir de tal empresa e dedicar-se a apenas ouvir. Ao segundo grupo de contestadores, que entendem mas não conseguem colocar em prática Agostinho recomenda que estes procurem a Deus e sua iluminação, dando a entender que não basta apenas a inteligência para compreender as Escrituras ou os seus métodos e, que a parte mais importante não compete a nós mas a Deus, evitando assim a soberba humana. A última parte dos contestadores constitui a inspiração desta reflexão, isto é, ao responder que não era necessária a intervenção de Agostinho, estes entraram em contradição consigo mesmo: ainda que possuam realmente este “dom divino” - que Agostinho não nega, pelo contrário não discute sua existência – de interpretação das Escrituras, em algum momento da vida, mais especificamente no início dela, necessitaram da ajuda de homens ou mulheres para aprender a ler ou escrever, isto é, o dom recebido só pode ser exercido em sua plenitude através da mediação humana.
E para afirmar o que diz remete a  exemplos da própria Escritura:  a conversão do apóstolo Paulo e as orações do centurião Cornélio (pg. 45).
A importância da mediação humana, que é o título desta reflexão, se torna relevante a partir destes exemplos que Agostinho cita para corroborar a importância do papel do homem na história da salvação e, principalmente, para a divulgação do Evangelho de Jesus. O exemplo da conversão do apóstolo S.Paulo (At 9, 3-7) mostra-nos que mesmo após ter ouvido a voz divina Paulo não se ensoberbece, pelo contrário, obedece esta mesma voz quando esta afirma que ele deveria procurar o discípulo Ananias e receber os sacramentos. A questão que se levanta é: porque o próprio Jesus não ministra os Sacramentos que foram instituídos por ele mesmo? Porque ele pede para que Paulo procure seu discípulo Ananias? A resposta pode estar no orgulho humano. Quem poderia garantir que Paulo não se sentisse superior aos outros apóstolos visto que este teve a graça de ser chamado pelo próprio Cristo? Mas Jesus, em sua infinita sabedoria chama o homem para completar o chamado feito por Ele e que o tornara um dos maiores apóstolos e, ao mesmo tempo, o mais humilde deles?
Da mesma forma o exemplo do centurião Cornélio ( At 10, 1-48) que teve suas orações ouvidas por Deus através da confirmação do anjo, e que, no entanto, este mesmo anjo que mostra a eficácia de suas orações não ministra-lhes os sacramentos, pelo contrário, estes são feitos através do Apóstolo S. Pedro que é enviado por Deus a sua casa. Porque o próprio anjo não ministrou os sacramentos? Responde Agostinho: “Se assim fosse, a condição humana teria sido desapreciada, pois Deus não teria querido transmitir sua palavra, por meio de homens.” (pg. 45).
Portanto, Deus poderia sim fazer todo o trabalho de evangelização sozinho ou através de seus anjos, mas nos escolheu. E não é qualquer escolha, somos chamados a divulgar sua Palavra e, acima de tudo, dar testemunho dela, é o que afirma Agostinho citando o S.Paulo: “O templo de Deus é santo e esse templo sois vós (1Cor 3,17)”. Devemos desta forma ouvir com mais atenção a palavra de Deus que nos é proferida através dos padres nas celebrações, evitando conversas paralelas ou depreciações sobre este ou aquele sacerdote ou pregador, mesmo quando percebemos erros doutrinários, pois, mesmo nestes momentos Deus nos ensina convidando-nos a reflexão.