A desilusão da qual Agostinho sofreu com os maniqueus e a impossibilidade de que esta seita respondesse ás dúvidas que permeavam sua mente sobre a verdade, a essência de Deus, a origem do mal entre outros levou – como dito no tópico anterior - Agostinho ao ceticismo. Porém, este ceticismo não se referia sobre a ausência total de uma verdade, pois, segundo ele as operações matemáticas ofereciam certezas sobre as quais não é possível duvidar, mas sim obter nas respostas que procurava as mesmas certezas que provinham das ciências matemáticas (Conf. VI 4,6). Estas incertezas angustiavam a Agostinho, o encontro com um mendigo embriagado relatado no Livro VI das confissões relata bem sua angústia por não conseguir obter a verdade:
“Meu coração agitava-se com esses cuidados... quando, passando por uma viela de Milão, reparei num pobre mendigo que, talvez meio bêbado, estava alegre e de bom humor... É claro que a alegria dele não era a verdadeira; mas o objeto de minha ambição era bem mais falso. Ele, pelo menos estava satisfeito com sua alegria, e eu, preocupado... cheio de inquietações.” (Conf. VI 6, 9)
Agostinho reconhece que - após o episódio com o mendigo em Milão -a busca da verdade e o seu atual ceticismo tinham como princípio e fundamento a sua ambição, ou seja, a sede por conseguir as respostas tão desejadas tinha como objetivo saciar sua vaidade, isto é, de ser bem visto pelos homens e receber deles a glória. A busca pela verdade tinha tomado outro rumo, não existia mais o desejo de possuí-la e dela deleitar-se desfrutando de toda a sua beleza, mas sim, por pura vaidade.
No diálogo A vida feliz Agostinho refuta o ceticismo de Navígio partindo da afirmação de sua própria existência, ou seja, a certeza de que possuímos um corpo e uma alma é o primeiro passo obtido por Agostinho rumo a resolver tal problema; a garantia de que somos, também garante-nos a existência de um corpo que necessita de alimento para subsistir e que ele não se sustenta por suas próprias forças. Entretanto, é a vida que mantém o corpo; o alimento impede que o corpo definhe, mas é a alma, ou seja, é a vida e não o alimento que garante a existência (A Vida Feliz II, 2,7). Para provar a existência de Deus, Agostinho em sua obra O Livre Arbítrio, também parte de sua própria existência para assim comprovar a existência de Deus, estabelecendo uma hierarquia dos seres de acordo com suas características (O Livre Arbítrio III, 3,7). Assim sendo, os céticos podem duvidar de tudo menos de sua própria existência, o ceticismo é então contraditório para Agostinho.
Mesmo ciente das contradições do ceticismo e anteriormente do maniqueísmo, a influência destes ainda impede a Agostinho de caminhar em busca da verdade. No livro VII das Confissões Agostinho ainda carregado da influência materialista do materialismo maniqueísta, se vê incapacitado de conceber a essência de Deus:
“Não conseguia imaginar outra substância além da que os olhos vêem... Desse modo eu era sempre constrangido a imaginar-te, se bem que não sob forma de corpo humano, sempre como algo corpóreo...” (Conf. VII 1,1)
Essa dificuldade de diferenciar a luz de sua materialidade é explicada por Gilson:
“Não somente entendias essa luz em sentido material, mas ele materializava também tudo que, sendo de natureza luminosa, devia ser considerado como uma parcela de Deus.” (GILSON, 436)
Ao contrário, a influência acadêmica que pairava sobre a mente de Agostinho consistia na possibilidade ou não de crer nas Escrituras. A possibilidade de encontrar uma certeza inabalável como as certezas matemáticas levam-no a abrir-se a fé, ou seja, somente através da fé é que Agostinho poderá encontrar as certezas que tanto procura; antecedendo a razão cabe agora a própria razão explicar aquilo que a fé lhe propõe. O ato de crer é perfeitamente normal e existe em todos os âmbitos de qualquer sociedade, pois ela parte de um testemunho; todos os conhecimentos e verdades que até então encontramos em nossa vida – em sua grande maioria – são pautados pelo testemunho ou pela autoridade de quem se confia, portanto o ato de crer é perfeitamente comum e dá a Agostinho uma nova visão - á outrora concebida como sem valor - as Escrituras Sagradas.
Gostei muito do seu texto, um texto
ResponderExcluirque além de relatar bem como Santo
Agostinho transformou-se em cético,
você colocar trechos de seus relatos.
Parabéns!