Nos dias atuais notamos a importância e influência que alguns pregadores possuem sobre seus fiéis. Tal “devoção” chega ao ponto de ocorrerem desavenças entre pessoas de ideias e concepções diferentes da ideia que possuem sobre o que é, na verdade, um pregador. Estes, em sua grande maioria, ensinam a doutrina cristã católica convencional; no entanto, os que acabam se sobressaindo são aqueles que em certo sentido “avançam”, adaptando a fé ao que o mundo pede.
Mas, deixando as polêmicas de lado – sendo que elas não são o motivo desta reflexão – o que deve ser considerado como relevante é se mesmo com todas estas diferentes formas de se anunciar o Evangelho, seria o papel de anunciador, que é adotado por aquele(a) neoconverso, realmente necessário para Deus? Qual a importância dele, mesmo com todas as divergências colocadas no parágrafo anterior?
Santo Agostinho, em seu livro A Doutrina cristã, destaca uma parte de seu prólogo para definir a importância da mediação humana na evangelização partindo de um ponto nada simples: ele mesmo. Sim, porque na obra acima citada Santo Agostinho quer ensinar como interpretar as Escrituras de forma que, aqueles que a estudam consigam compreender – ainda que de forma superficial - o que Deus quer transmitir e, assim, retransmitir o que foi apreendido de forma correta ( a medida que avançam em seus estudos não somente da Bíblia) evitando um ensino equivocado e logo desfigurado do que a Igreja, através do seu magistério sempre ensinou; como o próprio Santo afirma: “ Assim, poderão eles progredir não apenas lendo obras de outros que esclareceram as obscuridades dos Livros santos, mas ainda progredir , com os esclarecimentos que eles próprios poderão dar a outros.” (A Doutrina Cristã, pg. 41)
Além desta primeira recomendação, Sto. Agostinho quer também responder a aqueles que venham a refutar seus argumentos, como acontece hoje em dia e que foi comentado no começo desta reflexão. Assim, ele divide seus contestadores em três: aqueles que simplesmente não entenderam, aqueles que entenderam e que ao aplicarem tais formas não chegam ao resultado esperado: a compreensão do texto sagrado, e, por último, aqueles que julgam não ser necessárias as argumentações agostinianas por se considerarem “escolhidos (as)” por Deus, sendo capazes de interpretar qualquer passagem que lhes forem apresentadas através da oração.
A resposta do bispo de Hipona a estes contestadores é simples: aos primeiros que julgam seus argumentos confusos por não conseguirem compreendê-los, ele responde que não é a ele (Agostinho) que eles devem reclamar, dando a entender que alguns devem se esforçar muito mais do que outros antes de tentar interpretar as Escrituras, ou então, desistir de tal empresa e dedicar-se a apenas ouvir. Ao segundo grupo de contestadores, que entendem mas não conseguem colocar em prática Agostinho recomenda que estes procurem a Deus e sua iluminação, dando a entender que não basta apenas a inteligência para compreender as Escrituras ou os seus métodos e, que a parte mais importante não compete a nós mas a Deus, evitando assim a soberba humana. A última parte dos contestadores constitui a inspiração desta reflexão, isto é, ao responder que não era necessária a intervenção de Agostinho, estes entraram em contradição consigo mesmo: ainda que possuam realmente este “dom divino” - que Agostinho não nega, pelo contrário não discute sua existência – de interpretação das Escrituras, em algum momento da vida, mais especificamente no início dela, necessitaram da ajuda de homens ou mulheres para aprender a ler ou escrever, isto é, o dom recebido só pode ser exercido em sua plenitude através da mediação humana.
E para afirmar o que diz remete a exemplos da própria Escritura: a conversão do apóstolo Paulo e as orações do centurião Cornélio (pg. 45).
A importância da mediação humana, que é o título desta reflexão, se torna relevante a partir destes exemplos que Agostinho cita para corroborar a importância do papel do homem na história da salvação e, principalmente, para a divulgação do Evangelho de Jesus. O exemplo da conversão do apóstolo S.Paulo (At 9, 3-7) mostra-nos que mesmo após ter ouvido a voz divina Paulo não se ensoberbece, pelo contrário, obedece esta mesma voz quando esta afirma que ele deveria procurar o discípulo Ananias e receber os sacramentos. A questão que se levanta é: porque o próprio Jesus não ministra os Sacramentos que foram instituídos por ele mesmo? Porque ele pede para que Paulo procure seu discípulo Ananias? A resposta pode estar no orgulho humano. Quem poderia garantir que Paulo não se sentisse superior aos outros apóstolos visto que este teve a graça de ser chamado pelo próprio Cristo? Mas Jesus, em sua infinita sabedoria chama o homem para completar o chamado feito por Ele e que o tornara um dos maiores apóstolos e, ao mesmo tempo, o mais humilde deles?
Da mesma forma o exemplo do centurião Cornélio ( At 10, 1-48) que teve suas orações ouvidas por Deus através da confirmação do anjo, e que, no entanto, este mesmo anjo que mostra a eficácia de suas orações não ministra-lhes os sacramentos, pelo contrário, estes são feitos através do Apóstolo S. Pedro que é enviado por Deus a sua casa. Porque o próprio anjo não ministrou os sacramentos? Responde Agostinho: “Se assim fosse, a condição humana teria sido desapreciada, pois Deus não teria querido transmitir sua palavra, por meio de homens.” (pg. 45).
Portanto, Deus poderia sim fazer todo o trabalho de evangelização sozinho ou através de seus anjos, mas nos escolheu. E não é qualquer escolha, somos chamados a divulgar sua Palavra e, acima de tudo, dar testemunho dela, é o que afirma Agostinho citando o S.Paulo: “O templo de Deus é santo e esse templo sois vós (1Cor 3,17)”. Devemos desta forma ouvir com mais atenção a palavra de Deus que nos é proferida através dos padres nas celebrações, evitando conversas paralelas ou depreciações sobre este ou aquele sacerdote ou pregador, mesmo quando percebemos erros doutrinários, pois, mesmo nestes momentos Deus nos ensina convidando-nos a reflexão.

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